correr a vida e poder fazer um novo encontro com ela e comigo, achar mais graça nas coisas que ninguem nem conta, adenotas de conotações... eu corro a vida e registro aqui as notas de coisas menos e mais importantes que vivo ou não vivo... ver, ouvir e ler. notas de umphil.
~ Wednesday, March 20 ~
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caibo

cabe-se no bolso a mão
para que de lá extraia o que é necessário
para o imediato ou para reserva de pouco
cabe-se na terra o que amalgama
que pode ser opaco, turvo ou pálido
para que seja vivo ou morto
para que seja demorado ou rápido
cabe-se em si aquilo que se vale
o que não derrama de dentro para fora
para o fim de qualquer natureza
para que se mereça o que se vale
cabe-se fora o que não denota espaço
ou aquilo que em diâmetro algum se encontra
para que a terra se amalgame e vire espaço
para que a mão sempre caiba no bolso

~ Monday, November 28 ~
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um outro

pra cada imprevisto eu recorro a muita paciência, ele se desdobra.

ele se levanta num pulo da cama e abre um sorriso, eu me desamasso.
ele insiste nas corridas e passeios de fim de semana, eu me afundo no sofá.
eu ando devagar e olho pros lados, ele alcança o outro lado da avenida antes do sinal virar.
eu dobro e empilho as toalhas no armário, ele enrola na cintura pra deixa-la cair.

pra cada imprevisto ele recorre a muita insistência, eu me demoro.
eu me levanto da cama com os olhos fechados, ele se lança pra cima de mim.
eu assisto filme concentrado, ele se envole entre os meus dedos e braços.
ele dobra a esquina sem notar o pássaro, eu passo voando.
ele se demora no banho, eu também.

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~ Friday, November 25 ~
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volante de navio

apesar dos contraditos que insistem em me dizer onde eu não posso limiar, a forma como tomo conta da nau já é tão contraditória por si que me faz acreditar haver algum escuro indefinido, perdido pelos triângulos e temporais dessas águas insolúveis, no qual, ao final, afinal, posso chamar de meu.

a construção de meu espaço depende dessa força que abdica de mim arestas que não transponho e que ao mesmo instante me outorga como empuxo a descoberta de breus onde eu possa clarear.
então, percebo que ao tentar atravessar esses limites somente a espera de algo maior além das fronteiras, não me faz enxergar aquilo que eu tenho do meu lado, ou embaixo do meu nariz. Por fim me contento a desenfrear timões para explorar o espaço onde estou, sem nunca deixar de olhar adiante, e amiúde enfrentar as correntes que, indomáveis, me levarão às águas onde eu vou me dissolver.

1 note
~ Friday, October 7 ~
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oração

senhor dos aflitos, dos que recorrem a consolos irremediáveis

acalme a mais um músculo o devaneio que lhe faz falhar o fado repetido dos batimentos

desmanche a imagem da enfadonha saga que nos faz chegar a ponto nenhum

desarme os homens de pouca coragem, desembace a indefinição do tirocínio

que eu olhe o mundo e consiga enxergar nele somente aquilo que me faz querer

e que mesmo que eu não deixe um legado com a honra dos primos da humanidade

que eu consiga morrer sem comprovar a minha crença em deus, 

pois a dúvida é que remedia a dor dos seres aflitos pela sua boa vontade

que eu continue sendo esfaqueado por algum amor dúbio entre o tátil e o etéreo

que continue doendo a cada dia, e que eu morra, ainda tentando viver.


~ Saturday, October 1 ~
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sem pretexto

gosto das figuras desajeitadas
do declínio dos ombros por baixo das roupas largas
da construção da nova geometria que se dá pelas arestas vesgas
dos arranjos de pernas magras
a linha da nuca, das orelhas
gosto dos ossos firmes e angulares
gosto dos olhares vazios, singulares
das panturrilhas duras e estreitas
das mãos gastas, cotovelos brancos
pelos desalinhados, silêncios mancos
gosto dos pequenos cacoetes
adoro os esguios antebraços
as costas lisas, umbigo curto
pau grande, ombro magro
gosto dos sujeitos em desalinho
figuras com pouca carne
não me peça pra reparar a cereja do bolo
prefiro as rapas do tacho
elas não engordam pois vem sem recheio
mas satisfazem com cobertura em jato.


~ Monday, September 26 ~
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quando eu quis dizer que sinto vontade de você por perto

Queria tar conversando com você agora. Dar aquela desabafada e falar um pouco de tudo, misturar os assuntos e me perder no meio das coisas que eu digo e rir disso…

Falar de umas coisas que me deixam chateado, enfim, queixar das banalidades de um dia, ou de uma noticia do jornal, conversar horas, fazer desfeita pro tempo e depois deitar em você, admitir que eu sou fraco e não tou conseguindo algumas coisas. Claro que eu guardaria várias vulnerabilidades pra você descobrir depois, com o tempo, assim como a leitura de um livro que se desenvolve por base de capítulo a capítulo.

Dessa mesma maneira ouvir de você os comentários da previsão do tempo ou o preço da vodka em algum supermercado… assim sem definições, do jeito criado a partir da repetição do nosso próprio repertório, te conhecer de fora pra dentro, como de costume, e ver se me acho lá dentro de você, como se de dentro pra fora tivesse um espaço que avança unidades pequenas e que é onde você guarda as minhas fotografias e memórias que você leu e revelou.

O melhor seria te ver descobrindo um pouco de você dentro de mim, como se de fora eu visse alguém achar uma planta, da qual ele plantou um grão e vê que tem ali um lugar que é só dele, que apesar de pequeno, se cuidado da forma como acha que deve, ele vai crescendo e se modificando pra melhor.

Assim eu me sentiria um pouco mais feliz do q eu já sou hoje…


~ Wednesday, August 31 ~
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quase religião

Parece-me incoerente, não para você?

Com resultados imediatos e botões nos quais você aperta e seu texto, sua imagem, seu tão pouco sai e parece que não volta. Grave no disco as coisas que queria me dizer, todas as memórias que você roubou e nunca teve, um arquivo perfeito que construiu e que nunca usou, nunca vai usar.

Meu relógio ficou sem pilha, mesmo assim meu tempo insiste em não parar. Tentei lembrar de você, mas acho que esqueci a senha. Só reconheci o que é comum a todo mundo, encontrei fragmentos de você em pessoas que eu nem conhecia, em objetos que ainda não existiam. Honesto e medíocre percebi que eu não posso mesmo lembrar. O disco quebrou, o vinco rasgou, o tecido puiu, quebraram as lâmpadas e desbotou a estampa, mas eu, como você aperto o botão, eu tento parar no tempo, monto minhas máximas com o mínimo possível, e gravo, um compacto, que eu também nunca vou usar.

Hoje eu pensei em como denunciar pra mim mesmo esse modo estranho em que as coisas acontecem, não achei a melhor forma, aliás, não achei nenhuma. Muito tempo para tentar entender as coisas, enquanto isso eu poderia simplesmente deixa-las acontecer.

Parece-me incoerente, não para você? Me lembra Bacamarte…

E ao perceber que achava todos que conhecia fossem loucos concluiu que o louco, na verdade era ele.

 Século dezenove, depois de cristo. 


~ Tuesday, August 2 ~
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apesar

me poupa das banalidades por traz do que você fala, eu ainda não entendi o quanto você pode ser importante na minha vida e apesar de achar pouco o que tem pra oferecer, eu aceito. eu aceito por não ter escolha, aceito antes mesmo que me ofereça. aceito por saber que sou pequeno o bastante diante de mim mesmo pra tomar quais são as decisões que eu, de fora, acho que seriam tomáveis e ter o controle, de dentro, pra saber quais são as medidas cabíveis.

é que eu sou do tipo que quando começa uma história já imagina a posição dos seus cabides junto dos meus no armário. não quero casar, não quero a vida mudando e ter de dividir meu banheiro, mas não sou besta ao ponto de fazê-lo, quando me achar pequeno pra decidir entre alguém e a solidão e optar sim por tomar banho todos os dias antes de me deitar, pois terei companhia, pois serei companhia.

então me poupa das graças, dos charmes, mas não desfaz deles. é que eu sou complicado e se pudesse nunca ter te conhecido eu teria sim optado, mas não escolho, não posso e não faço. é que eu sou pequeno e alguns cabides continuam vazios.


~ Thursday, June 16 ~
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ensaio

vem me fazer companhia?

faz assim: me deixa encostar o corpo todo em você, assim que tiver bem encaixado eu solto todos os músculos. você me segura assim, por uns cinco minutos, e me aperta, como quem estivesse prestes a perder o casaco, no frio. seu rosto vem passando perto do meu, não tenha medo de ser delicado demais, agressivo demais, seja bom, não tem perigo.
pensa assim: ele tá desprotegido, no colo, deitado, alheio no mundo. mudou de endereço, mora agora no meu colo, o peso dele contra o meu peso e nada mais precisa de sentido, ele tá de frio na barriga.

vem deitar comigo?

faz assim: joga o garoto na cama e deita por cima, e se solta até onde ficar bom. o encaixe é fácil, a gente parece nascer pronto de fábrica. e eu gosto quando fica assim. antes que qualquer coisa aconteça espere um pouco, vai dar pra sentir os estralos da minha coluna ou joelhos, ou do ombro. mais um pouco e você vai ouvir o corpo todo funcionando: pulmão, estômago e coração.
pensa assim: ele tá desprotegido, por baixo, atento em tudo, com poucos segredos, meu corpo sobre o dele gera um balanço, coisa fina, eu sinto tudo e ele tá de frio na barriga, de novo.


~ Sunday, September 19 ~
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azile’s bedroom