pra cada imprevisto eu recorro a muita paciência, ele se desdobra.
apesar dos contraditos que insistem em me dizer onde eu não posso limiar, a forma como tomo conta da nau já é tão contraditória por si que me faz acreditar haver algum escuro indefinido, perdido pelos triângulos e temporais dessas águas insolúveis, no qual, ao final, afinal, posso chamar de meu.
senhor dos aflitos, dos que recorrem a consolos irremediáveis
acalme a mais um músculo o devaneio que lhe faz falhar o fado repetido dos batimentos
desmanche a imagem da enfadonha saga que nos faz chegar a ponto nenhum
desarme os homens de pouca coragem, desembace a indefinição do tirocínio
que eu olhe o mundo e consiga enxergar nele somente aquilo que me faz querer
e que mesmo que eu não deixe um legado com a honra dos primos da humanidade
que eu consiga morrer sem comprovar a minha crença em deus,
pois a dúvida é que remedia a dor dos seres aflitos pela sua boa vontade
que eu continue sendo esfaqueado por algum amor dúbio entre o tátil e o etéreo
que continue doendo a cada dia, e que eu morra, ainda tentando viver.
gosto das figuras desajeitadas
do declínio dos ombros por baixo das roupas largas
da construção da nova geometria que se dá pelas arestas vesgas
dos arranjos de pernas magras
a linha da nuca, das orelhas
gosto dos ossos firmes e angulares
gosto dos olhares vazios, singulares
das panturrilhas duras e estreitas
das mãos gastas, cotovelos brancos
pelos desalinhados, silêncios mancos
gosto dos pequenos cacoetes
adoro os esguios antebraços
as costas lisas, umbigo curto
pau grande, ombro magro
gosto dos sujeitos em desalinho
figuras com pouca carne
não me peça pra reparar a cereja do bolo
prefiro as rapas do tacho
elas não engordam pois vem sem recheio
mas satisfazem com cobertura em jato.
Queria tar conversando com você agora. Dar aquela desabafada e falar um pouco de tudo, misturar os assuntos e me perder no meio das coisas que eu digo e rir disso…
Falar de umas coisas que me deixam chateado, enfim, queixar das banalidades de um dia, ou de uma noticia do jornal, conversar horas, fazer desfeita pro tempo e depois deitar em você, admitir que eu sou fraco e não tou conseguindo algumas coisas. Claro que eu guardaria várias vulnerabilidades pra você descobrir depois, com o tempo, assim como a leitura de um livro que se desenvolve por base de capítulo a capítulo.
Dessa mesma maneira ouvir de você os comentários da previsão do tempo ou o preço da vodka em algum supermercado… assim sem definições, do jeito criado a partir da repetição do nosso próprio repertório, te conhecer de fora pra dentro, como de costume, e ver se me acho lá dentro de você, como se de dentro pra fora tivesse um espaço que avança unidades pequenas e que é onde você guarda as minhas fotografias e memórias que você leu e revelou.
O melhor seria te ver descobrindo um pouco de você dentro de mim, como se de fora eu visse alguém achar uma planta, da qual ele plantou um grão e vê que tem ali um lugar que é só dele, que apesar de pequeno, se cuidado da forma como acha que deve, ele vai crescendo e se modificando pra melhor.
Assim eu me sentiria um pouco mais feliz do q eu já sou hoje…
Parece-me incoerente, não para você?
Com resultados imediatos e botões nos quais você aperta e seu texto, sua imagem, seu tão pouco sai e parece que não volta. Grave no disco as coisas que queria me dizer, todas as memórias que você roubou e nunca teve, um arquivo perfeito que construiu e que nunca usou, nunca vai usar.
Meu relógio ficou sem pilha, mesmo assim meu tempo insiste em não parar. Tentei lembrar de você, mas acho que esqueci a senha. Só reconheci o que é comum a todo mundo, encontrei fragmentos de você em pessoas que eu nem conhecia, em objetos que ainda não existiam. Honesto e medíocre percebi que eu não posso mesmo lembrar. O disco quebrou, o vinco rasgou, o tecido puiu, quebraram as lâmpadas e desbotou a estampa, mas eu, como você aperto o botão, eu tento parar no tempo, monto minhas máximas com o mínimo possível, e gravo, um compacto, que eu também nunca vou usar.
Hoje eu pensei em como denunciar pra mim mesmo esse modo estranho em que as coisas acontecem, não achei a melhor forma, aliás, não achei nenhuma. Muito tempo para tentar entender as coisas, enquanto isso eu poderia simplesmente deixa-las acontecer.
Parece-me incoerente, não para você? Me lembra Bacamarte…
E ao perceber que achava todos que conhecia fossem loucos concluiu que o louco, na verdade era ele.
Século dezenove, depois de cristo.
me poupa das banalidades por traz do que você fala, eu ainda não entendi o quanto você pode ser importante na minha vida e apesar de achar pouco o que tem pra oferecer, eu aceito. eu aceito por não ter escolha, aceito antes mesmo que me ofereça. aceito por saber que sou pequeno o bastante diante de mim mesmo pra tomar quais são as decisões que eu, de fora, acho que seriam tomáveis e ter o controle, de dentro, pra saber quais são as medidas cabíveis.
é que eu sou do tipo que quando começa uma história já imagina a posição dos seus cabides junto dos meus no armário. não quero casar, não quero a vida mudando e ter de dividir meu banheiro, mas não sou besta ao ponto de fazê-lo, quando me achar pequeno pra decidir entre alguém e a solidão e optar sim por tomar banho todos os dias antes de me deitar, pois terei companhia, pois serei companhia.
então me poupa das graças, dos charmes, mas não desfaz deles. é que eu sou complicado e se pudesse nunca ter te conhecido eu teria sim optado, mas não escolho, não posso e não faço. é que eu sou pequeno e alguns cabides continuam vazios.
vem me fazer companhia?
faz assim: me deixa encostar o corpo todo em você, assim que tiver bem encaixado eu solto todos os músculos. você me segura assim, por uns cinco minutos, e me aperta, como quem estivesse prestes a perder o casaco, no frio. seu rosto vem passando perto do meu, não tenha medo de ser delicado demais, agressivo demais, seja bom, não tem perigo.
pensa assim: ele tá desprotegido, no colo, deitado, alheio no mundo. mudou de endereço, mora agora no meu colo, o peso dele contra o meu peso e nada mais precisa de sentido, ele tá de frio na barriga.
vem deitar comigo?
faz assim: joga o garoto na cama e deita por cima, e se solta até onde ficar bom. o encaixe é fácil, a gente parece nascer pronto de fábrica. e eu gosto quando fica assim. antes que qualquer coisa aconteça espere um pouco, vai dar pra sentir os estralos da minha coluna ou joelhos, ou do ombro. mais um pouco e você vai ouvir o corpo todo funcionando: pulmão, estômago e coração.
pensa assim: ele tá desprotegido, por baixo, atento em tudo, com poucos segredos, meu corpo sobre o dele gera um balanço, coisa fina, eu sinto tudo e ele tá de frio na barriga, de novo.